Método Global ou Analítico da Leitura

Os métodos analíticos ou globais têm como base a palavra ou a frase, considerada como um todo, na aprendizagem da leitura, não se procedendo frequentemente à análise dos elementos fonético, essencialmente ao longo das primeiras aulas de iniciação à leitura.

As bases do método global foram lançadas em 1787, por Nicolas Adam em que assegurava que o método supracitado partia do pressuposto de que a letra, a sílaba ou um som não tinham qualquer significado prático ou lógico para a criança.

A Fundação Ibero Americana de Trissomia 21 refere que a aprendizagem da leitura é assemelhada à aprendizagem da fala: a criança principia por aprender o nome do objeto para depois conhecer as suas unicidades, particularidades e características específicas. Deste modo, as crianças deverão ser distanciadas da aprendizagem do alfabeto e apropinquadas das palavras inteiras que referenciam objetos ou pessoas conhecidas e que elas gravarão com muita mais espontaneidade do que todas as letras e sílabas impressas.

A maior motivação e interesse despontam na aprendizagem da leitura como sendo um todo, de uma palavra ou expressão que seja familiar à criança. Este conjunto de palavras deve ser aumentado à medida que a criança vai progredindo e reconhecendo as palavras dadas anteriormente.

No entanto, esta perspetiva limita o ponto de partida à palavra e prolonga o trabalho global, assim como atrasa a decomposição em letras e sílabas.

Gonçalves (1967) refere que, o francês José Jacotot tinha como ponto de vista que as crianças deveriam partir da frase, passando rapidamente à análise e à síntese. Em 1818, Jacotot expressa que “as crianças aprenderiam de memória a oração e depois desceriam à análise da mesma, decompondo-a em palavras, sílabas e letras” (Gonçalves, 1967).

Esta nova corrente de pensamento de Jacotot foi corroborada por Claparède. Gonçalves (1967) refere que, segundo Claparède, para a criança, a palavra ou até a frase, constituem um desenho cuja fisionomia geral a cativa muito mais que o desenho de letras isoladas, que ela não distingue no conjunto.

Daqui surge uma designação de sincretismo pendida para a visão de conjunto, a perceção da fisionomia geral das coisas. Numa primeira etapa, o interesse pelo objeto é direcionado para o todo, a unidade.

Alguns anos mais tarde, após o lançamento desta corrente por Jacotot e Claparède, em 1923, Piaget (cit. in Gonçalves, 1967). também aderiu a esta mesma corrente de ideias, afirmando:

Na linguagem, como na perceção, o pensamento vai do conjunto às minudências e não em sentido inverso (…) Em vez de analisar o pormenor do que se lhe diz, ela raciocina sobre o conjunto. (…) As palavras desconhecidas são assimiladas em função do esquema global da frase ou frases. O sincretismo da compreensão consiste exatamente no facto de a compreensão do todo proceder a análise do pormenor e de a compreensão do pormenor não se operar senão em função do esquema do todo.

Ovide Decroly foi um dos pedagogos sistematizadores dos métodos globais e foi através do seu método de alfabetização ideovisual que este processo se veio a desenvolver.

Decroly defendia que em primeiro lugar, a criança conhece as coisas globalmente e só depois se fixa nos pormenores. As crianças é que se tornariam sensíveis a certas semelhanças de forma e som e, sem precisar de destacar os elementos idênticos, de os escrever e de os pronunciar isoladamente, se serviriam deles para decifrar ou escrever imediatamente novas palavras.

A este método deu-se também a classificação de ideovisual por ter como base as sensações e representações visuais. Este pedagogo utilizava uma metodologia que se baseava no agrupamento de todas as atividades da aula, tendo como alicerce um tema central, mas sempre relacionado com os centros de interesse e o meio de vida dos alunos.

Com este procedimento desejava-se que todas as crianças compreendessem o que liam e se orientassem para a compreensão do texto. Este processo caracterizava-se, ainda, por dois aspetos fulcrais: o aspeto funcional e o aspeto natural. O aspeto funcional estava ligado com os interesses da criança, surgindo assim o método dos centros de interesse, da observação e da expressão. Por sua vez, o aspeto natural estava relacionado com um método que partia da linguagem oral e se orientava, posteriormente, para a escrita.

De um modo geral, segundo Gonçalves (1967), o método de Decroly colabora para conceber a personalidade da criança, pela manifestação oral e gráfica das ideias, convenientemente compreendidas e habitualmente assimiladas. Honra a espontaneidade da sua linguagem e emprega a função globalizadora à aquisição da leitura, da escrita e da ortografia. Essa espontaneidade deve ser ativada pela conversação e por trabalhos individuais (habitualmente integrados em centros de interesse) e desenvolvida por íntima relação entre exercícios de observação e de associação.

Segundo Gonçalves (1967), neste procedimento ideovisual, as perceções e representação visual, auditiva e de articulação das palavras e frases prolongam-se como sendo um trabalho de memória, como ocorria nas metodologias sintéticas, mas esse trabalho de memória passa a ser coadjuvada pela intuição, isto é, pela intervenção dos sentidos.

Para Gonçalves (1967), as metodologias de base global não se podem misturar com as metodologias analíticas puras, pois em rigor neste caso da iniciação da leitura, o método de análise não se aplica em exclusivo, mas sim associado numa síntese, a qual será uma necessária etapa complementar. O método global será um método misto que, na primeira etapa da sua aplicação coloca os alunos perante uma unidade de compreensão, isto é, de sentido completo.

De acordo com a unidade de um todo, tomada como ponto de partida no caso da palavra, tem-se o método global das palavras. Este método é utilizado, partindo da palavra como um todo, sendo estas palavras escolhidas entre o vocabulário normal, comum, do ambiente das crianças, exprimindo, pois, ideias acessíveis à sua compreensão, de forma a associar a forma gráfica da palavra à ideia e ao objeto por ela representado.

Dentro do método global existem três etapas fundamentais para a aprendizagem da palavra como um todo.

1ª Etapa – a primeira etapa resume-se à associação da palavra ouvida à imagem apresentada, isto é, a criança identifica a palavra ouvida como correspondência a uma das três imagem que lhe são mostradas.

2ª Etapa – numa segunda etapa, a criança visualiza a imagem, e são-lhe dadas duas palavras, das quais a criança tem de identificar qual a que corresponde à imagem apresentada.

3ª Etapa – numa terceira etapa, a criança lê automaticamente a palavra como um todo, sem ser necessário a apresentação da respetiva imagem.

Apenas num período posterior a esta terceira etapa, se avança ou não (dependendo das crianças) para a análise sistemática dos seus elementos.

Nesta análise sistemática dos elementos das palavras anteriormente visualizada como um todo, podem considerar-se, ainda mais, três etapas.

1ª Etapa – a palavra: é a etapa globalística, em que a criança aprende a ler, sincreticamente, palavras, que lhe são familiares. A exposição de cada palavra deverá ser acompanhada de um objeto, gravura ou desenho no quadro que lhe corresponda e à volta do qual se estabelece, para estímulo, uma conversação breve;

2ª Etapa – a sílaba: é já uma etapa analíticossintética, na qual se farão jogos de decomposição das palavras aprendidas, até à sílaba, seguidos de outros jogos de recomposição e até de formação de novas palavras com as sílabas obtidas. Depois de aprendidas algumas palavras, executar-se-á a sua decomposição em sílabas, levando as crianças a identificar que a sílabas iguais correspondem sons iguais, firmando assim os elementos reconhecíveis, imprescindíveis para a formação e leitura de novas palavras.

3ª Etapa – a letra: é a última etapa analíticossintética, em que os jogos de decomposição e recomposição, e de formação de novas palavras vão até à letra. A criança continuará a corroborar que a letras iguais condizem sons ou articulações iguais, fixando desta forma os elementos essenciais para a constituição e leitura de novos vocábulos.

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