“SINAIS DO TEMPO”

 

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.

A sociedade está em constante transformação levando consigo alterações que têm que se adaptar ao tempo, ao espaço e cultura, a todo um contexto sociológico. Outrora, a sociedade exigia e permitia determinados padrões de comportamento e regras que se esvaíram no tempo tendo-se transformado, nos dias de hoje, numa nova realidade. Toda esta evolução teve implicações a nível social, familiar e escolar, modificando o conjunto de ideologias vigentes até então.

 

Segundo Bourdieu, é através da socialização primária ditada pelas relações da classe da família que a criança apreende os princípios organizadores do comportamento. Isto é, a família é o marco mais importante para que a criança se organize a nível de comportamentos e afectos; é através da família que a criança cria as suas bases de formação enquanto indivíduo. A família torna-se o espelho social, em que a criança se reflecte e com o qual se identifica, com os seus comportamentos e atitudes, quer tenham carácter mais positivo ou negativo, aos olhos da restante população.

 

Os avanços tecnológicos contribuíram para uma mudança de mentalidades, reflectindo-se nas atitudes e comportamentos das famílias e das crianças, em particular e na sociedade em geral. Se reflectirmos sobre as próprias brincadeiras e interesses, verificamos que, hoje em dia, estas estão cada vez mais centradas nas novas tecnologias (dvd’s, videojogos, computadores….), mais individualistas e mais sedentárias. O espaço físico passou do exterior para espaços fechados, as brincadeiras passaram de colectivas para “solitárias”, contribuindo para modos de vida completamente distintos, quer de adultos, quer de crianças, de há décadas atrás.

 

Estas mudanças tiveram implicações na estrutura familiar, quer a nível sexual, reprodutivo, económico e educativo.

 

No que diz respeito ao nível económico, o conceito de família também sofreu alterações. O casamento deixou de ser visto como um porto seguro em que a mulher necessitava casar para poder, legitimamente, “sair” de casa dos pais e adquirir estabilidade e liberdade financeira. Hoje, a mulher adopta outra postura, mais independente moralmente e financeiramente, mais segura relativamente a questões de sustentabilidade e tomada de decisão tais como a maternidade, o casamento, o divórcio.

 

No que concerne às necessidades sexuais/reprodução, a mulher já não desempenha apenas o papel de reprodutora, programa a gravidez consoante as suas prioridades e objectivos de vida. A própria decisão de ser mãe foi alterada com a legalização do aborto. Os filhos possuem agora uma função discrepante da que tinham anteriormente, deixando de ser unidade de produção para serem uma unidade de consumo. Ao contrário do que acontece no presente, o número elevado de filhos era sinónimo de fonte de rendimentos. Passámos, assim da família alargada para a família nuclear. A vida profissional cada mais activa das famílias não lhes permite ficar com os filhos, acabando estes por ficar entregues a instituições escolares cada vez mais tempo. Os pais acabam por trabalhar mais porque o nível de vida que pretendem alcançar assim o exige, acabando por não passar muito tempo com os filhos e compensando-os a nível material. Deste modo, os filhos tornam-se solitários e individualistas, tendo falta de afecto e convívio, tornando-se todo este sistema numa espécie de bola de neve, num ciclo vicioso, em que umas atitudes, levam a outras.

 

É neste contexto que a escola tem um papel fundamental, pois é lá que as crianças exprimem todas as suas emoções recalcadas e situações traumáticas. A família deixou mais uma vez de desempenhar a função de socialização da criança, cabendo agora este papel à escola.

 

A escola tem vindo igualmente a adaptar-se a todas as transformações vividas pela sociedade, na medida em que deixaram de existir as ditas turmas homogéneas e passaram-se a ter turmas heterogéneas. A figura do professor que outrora era inquestionável passou agora a ser posta em causa. Este passou a ser visto com outros olhos tanto pela família, como pela comunidade educativa em geral. Noutros tempos, a família estava alicerçada ao professor, tendo uma atitude de respeito e consideração pelo seu trabalho, enquanto que, actualmente, o mesmo é desvalorizado e colocado em causa, apesar do trabalho ser cada vez mais complexo, devido à heterogeneidade das turmas.

 

De facto, mudam-se os tempos e daí advém transformações nem sempre positivas, com as quais a escola tem de lidar. As crianças são cada vez mais “depositadas” nas escolas; os pais demitem-se dos seus papéis de educadores, passando a ser a escola a assumi-lo, devido às adversidades e alterações que a sociedade sofreu e que implicam estas atitudes tão diferentes de há umas décadas atrás.

 

Em todo este contexto, surgiu-nos uma questão, no nosso ponto de vista, muito pertinente: Terá a escola a capacidade de dar resposta a toda a esta complexidade de transformações?

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