Os números de 2015

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos em Sydney, Opera House tem lugar para 2.700 pessoas. Este blog foi visto por cerca de 35.000 vezes em 2015. Se fosse um show na Opera House, levaria cerca de 13 shows lotados para que muitas pessoas pudessem vê-lo.

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Mutismo Seletivo

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No início do ano letivo, comecei a trabalhar com meninos com diversas dificuldades/necessidades educativas especiais.

Uma dessas necessidades estava catalogada como MUTISMO SELETIVO.

Já ouviram falar desta problemática? Ora bem, eu nunca me tinha deparado com tal.

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1) Que é o Mutismo Selectivo?
O Mutismo selectivo é uma perturbação da ansiedade infantil, caracterizada pela incapacidade da criança para falar em determinados contextos sociais, (como por exemplo a Escola). Estas crianças compreendem a língua ou idioma utilizado na comunicação verbal, expressando-se com toda a normalidade nos contextos nos quais se percepcionam como estando seguros e confortáveis. De acordo com a Associação Norte Americana de Mutismo Seletivo, mais de 90% das crianças com Mutismo selectivo também sofrem de Fobia Social ou de Ansiedade Social, sendo que alguns investigadores consideram o Mutismo Selectivo como um sintoma da ansiedade social.
Não é ainda totalmente conhecida a causa responsável pelo facto de determinados indivíduos desenvolvem os sintomas típicos de ansiedade social, como a rejeição em falar perante um grupo de pessoas, ou sentirem-se visivelmente incomodados nessas situações, enquanto outros experienciam uma incapacidade em falar, traço fundamental que caracteriza o Mutismo Seletivo.
O que é evidente é que estas crianças e adolescentes sentem um medo efectivo de falar, bem como, uma dificuldade e medo associado de estabelecer relações/ interacções sociais com pessoas não familiares. Complementarmente, também podem ser incapazes de comunicar de uma forma não verbal, ou de estabelecer um contacto visual com o interlocutor, podendo mesmo ficar paralisados, evidenciando um medo de tal ordem intenso (ao verem-se confrontados com certas situações sociais específicas).

É bastante desencorajador observá-los, tornando-se quase sempre extenuante para a criança/ adolescente e frustrante para os seus Pais, Professores e outros Técnicos.
2) Quais são os Critérios de Diagnóstico do Mutismo Selectivo?
Uma criança/ adolescente preenche os critérios de diagnóstico de Mutismo Selectivo, sempre e
quando:
A. Não fala em determinados contextos “selectivos”, como a escola, ou outros contextos sociais.
B. O sujeito fala normalmente em pelo menos um contexto (normalmente é em casa, embora uma pequena percentagem de sujeitos com Mutismo Selectivo revelem igualmente esta característica em casa).

C. A incapacidade do sujeito para falar interfere na capacidade para funcionar normalmente em âmbitos educativos e/ou sociais.
D. O mutismo revela-se persistente durante pelo menos um período de um mês.
E. O mutismo não é causado por um distúrbio da comunicação e não se manifesta como parte deoutro transtorno (como o autismo).

3) Porque é que a Criança desenvolve Mutismo Selectivo?
A maioria das crianças tem uma predisposição genética à ansiedade. Complementarmente parecem ter herdado a tendência para a ansiedade de outros membros da família (p.e., do seu Pai ou da sua Mãe), o que pode constituir uma vulnerabilidade para o desenvolvimento de distúrbios de ansiedade. Frequentemente estes sinais manifestam-se perante a dificuldade face à separação dos seus Pais (perturbação de ansiedade à separação), alterações de humor, choro fácil, comportamento de excessiva dependência, inflexibilidade, problemas de sono/ perturbações de sono, birras frequentes e extrema timidez desde a infância, associada a tendência para não estabelecer interacções sociais ou para o isolamento.
Quando estas crianças atingem a idade em que começam a interagir socialmente fora do contexto familiar, o seu medo persistente de falar ou de interagir/ comunicar começa a manifestar-se através de sintomas, tais como o ficar paralisado e “mudo”, pela falta de reacções emocionais, o manter uma postura rígida, falta de expressão facial, a ausência de sorriso e
consequentemente o mutismo.A investigação tem demonstrado que algumas destas crianças já nascem com aquilo a que
designamos por um temperamento inibido, o que significa que já em recém nascidos são mais propensos a evidenciar reacções ansiosas e a experienciar medo e receio face a novas situações ou experiências. Por esta constatação, há fortes motivos para pensar que muitos destes sujeitos já revelam desde cedo esta tendência e comportamentos decorrentes do seu temperamento inibido, aspecto que é quase sempre confirmado pelos Pais.
Os diferentes investigadores também têm demonstrado que estas crianças de temperamento inibido parecem ter uma redução do limiar de activação da área cerebral considerada como o ponto de convergência de todas as mensagens sensorio-perceptivas: a Amígdala. A função principal da amígdala é receber e processar os sinais de potencial perigo e activar uma série de reacções que ajudam os indivíduos a proteger-se face aos perigos que percepcionam. Em indivíduos ansiosos, a amígdala parece reagir de forma descontrolada, sendo activada inadequadamente, pondo em marcha respostas emocionais disfuncionais, ainda que o sujeito não esteja realmente me perigo.
No caso das crianças com Mutismo Selectivo, as repostas à ansiedade desencadeiam-se com o processo de desenvolvimento social: na Escola, Locais de Jogo ou de Brincadeira ou em Reuniões Sociais. Ainda que não exista nenhuma razão lógica para o medo, as sensações que a criança experimenta são tão reais como se fossem experimentadas por uma pessoa com uma fobia ou perturbação de ansiedade. Por exemplo, uma pessoa com fobia a aranhas (aracnofobia) sentirá um real terror paralisante se se vê exposta a uma tarântula, ou pior ainda, se vê forçada a
observá-la ou a tocá-la. A pessoa compreenderá logicamente que a tarântula é inofensiva, embora nenhuma explicação contribuirá para reduzir o seu medo, bem como as reacções físicas que esta pessoa experimenta, tais como: aceleração do ritmo cardíaco, sudação das palmas das mãos, e um forte desejo de evitar a interacção com o seu objecto fóbico.
Uma criança com Mutismo Seletivo emudece, devido a não conseguir superar esta sensação de medo que experimenta quando se espera que ela fale. Ao não responder, normalmente a pressão desaparece e a criança sente-se aliviada dos seus medos.
Se compararmos as crianças com Mutismo Selectivo com uma criança tipicamente tímida e envergonhada, as crianças com mutismo encontram-se no extremo da gama de timidez e de vergonha, considerando o grau de intensidade e de frequência destes dois componentes. A principal diferença entre a timidez e o Mutismo Selectivo, pode ser então uma questão de grau, mas a principal distinção a fazer é que no caso do quadro de Mutismo Selectivo, este interfere
significativamente na capacidade da criança para funcionar.  Se não se trata devidamente, normalmente vai exercer um sério impacto na educação da criança, na sua auto-estima e no seu desenvolvimento socio-emocional. Não obstante os factores genéticos e biológicos, estima-se que outros factores também podem contribuir para o desenvolvimento do Mutismo Seletivo. Um número importante de crianças com Mutismo Seletivo também padece de perturbações da linguagem e um número bastante extenso de sujeitos com este diagnóstico, também é proveniente de contextos bilingues, pensando-se que o facto de recorrerem a dois idiomas em simultâneo torna estas crianças mais vulneráveis ao desenvolvimento deste tipo de distúrbio. Tal decorre do facto de, para além de experienciarem um aumento da ansiedade em situações sociais, as dificuldades de linguagem contribuírem para que a criança seja mais consciente das suas limitações para falar, aumentando assim o seu medo de poder ser julgado pelos outros, ou alvo de críticas/ apreciações acerca do uso incorrecto do vocabulário.
Com efeito, se uma criança tem um traço genético de ansiedade e complementarmente foi educado num contexto bilingue ou sofre de uma perturbação de linguagem (ao nível da linguagem expressiva, p.e.), a probabilidade de desenvolver um quadro de Mutismo Seletivo incrementa com cada factor associado entre si.
Numa outra instância, um contexto indutor de stress, também pode ser um factor de risco, embora não exista nenhuma evidência de que a causa do Mutismo Selectivo esteja relacionada com abusos (físicos ou psicológicos), negligência, ou algum trauma ou exposição a experiências

traumáticas ou traumatizantes. Será importante sublinhar este ponto, na medida em que num passado recente, considerava-se que o mutismo estava associado a este tipo de perturbações.
De facto, em nosso entender, esta falsa crença é extremamente negativa para as famílias que procuram ajuda e no seio das quais se insere uma criança ou adolescente com estas características. Na verdade, não há consenso ou sustentação científica ou empírica que tenha conduzido à publicação de dados que confirmem que os abusos causam Mutismo Seletivo.

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4) Que características de conduta identificam uma criança com Mutismo Seletivo em contextos sociais?
É importante ter em conta que a maioria das crianças com Mutismo Selectivo são normais e comportam-se de forma tão adequada quanto qualquer outra criança, desde que se encontrem num ambiente ou contexto para si familiar e confortável. Como tal, é quase sempre um dado contrastante, o facto do comportamento da criança em casa (onde a criança age espontaneamente e interage de forma assertiva, empática, fazendo pedidos e sendo inquisitivo,
comunicativo e inclusivamente autoritária), ser diametralmente oposto àquele que é observado nos contextos onde emergem as características do mutismo.
O que caracteriza então os sujeitos com Mutismo Selectivo é a sua severa inibição do comportamento e a sua incapacidade para falar em certos contextos sociais. Nestes ambientes, as crianças com Mutismo Selectivo sentem-se como se estivessem constantemente num palco, experimentando os mesmos sintomas que muita gente vivência nesse papel e que lhes provoca o medo de entrar em cena. Refira-se ainda que alguns sujeitos com Mutismo Seletivo, também
desenvolvem somatizações ou reacções somáticas, padecendo de náuseas ou vómitos, diarreias, dores de cabeça e de uma gama de outros sintomas físicos, antes de se aproximarem ou de irem para a escola ou para qualquer outro contexto onde perspectivem que vá ocorrer alguma interacção social (p.e., uma consulta).
Quando estão na escola, ou noutros contextos que lhes provocam ansiedade, as características de comportamento podem variar nalguns sujeitos, que possam ser muito mais retraídos que outros. Por exemplo, alguns sujeitos com Mutismo Seletivo permanecem sem se mover, sem qualquer expressão facial ou tónus emocional, podendo mostrar uma linguagem corporal rígida ou “acabrunhada”. Outros baixam ou giram a cabeça, evitando o contacto visual com o
interlocutor, mexem no cabelo, ou escondem-se. Há medida que o tempo vai passando, algumas crianças aprendem a relacionar-se e a participar em certos ambientes sociais, comunicando de forma não verbal ou falando em voz baixa com algumas (poucas) pessoas por si seleccionadas.
Saliente-se ainda que, também existem variações no grau de ansiedade externa ou nervosismo demonstradas pelo sujeito. Efectivamente, por vezes estas crianças podem aparentar estar tranquilos externamente, podendo mesmo comunicar de forma não verbal, sendo no entanto muitas vezes mal interpretados pelos que com eles interagem, pensando que são desafiantes ou tendo um comportamento de oposição, uma vez que não demonstram sinais exteriores de nervosismo.

As crianças com Mutismo Selectivo tendem a revelar dificuldades de iniciativa e podem tardar em responder, inclusive se considerarmos somente um nível de comunicação não verbal. Como é evidente, esta situação pode ser bastante frustrante para a criança e pode conduzir a momentos de avaliação com classificações erroneamente baixas, assim como à má interpretação das suas capacidades cognitivas.
As relações sociais podem ser muito difíceis para as crianças com Mutismo Selectivo, ainda que alguns sejam bem acolhidos pelos seus pares. Na grande maioria dos casos os colegas de turma tendem a adoptar um papel protector relativamente a estas crianças ou a encetar estabelecer uma interacção e diálogo. Com efeito, para aquelas crianças que conseguem despertar nos seus companheiros o apoio e a sua capacidade de estimulação/ interacção sociaI, não existe
nenhuma dúvida que terão aqui algum potencial de promoção de competências sociais, que de outro modo não despoletariam. Paradoxalmente, nas piores situações, algumas crianças são vítimas de burlas, abusos e bullying por parte dos colegas, dado que se encontram completamente incapacitados para se defenderem por si próprios. Este parece ser um problema adicional que se acentua entre sujeitos mais velhos (adolescentes), parecendo manifestar-se com mais frequência entre rapazes do que em raparigas.
5) Existem outros traços de comportamento ou de personalidade associados?
As seguintes características podem encontrar-se em sujeitos com Mutismo Selectivo:
a) Maior sensibilidade ao ruído / hipersensibilidade cinestésica (possível Perturbação da Integração Sensorial)
b) Dificuldade em separar-se/ afastar-se dos seus pais (especialmente em crianças pequenas) e dificuldades para dormir independentemente (sozinhos no seu quarto…).
c) Introspectivo e sensível (parece entender o mundo que o rodeia melhor que as outras
crianças da sua idade), e demonstra uma maior sensibilidade aos sentimentos e
pensamentos dos outros.
d) Manifestações de problemas de comportamento nos contextos mais familiares, tais como: mau humor/ labilidade emocional, inflexibilidade, recusa de realização das tarefas escolares, choro fácil, birras, necessidade de exercer controlo sobre as pessoas mais familiares, dar ordens e falar excessivamente.
e) Inteligentes, perceptivos e inquisitivos.
f) Tendências criativas e artísticas.
g) Tendência para urinar na cama ou para ter acidentes diurnos (Enurese), ou para evitar sanitários públicos (Parurese), e/ou acidentes de deposições intestinais (Encoprese).
h) Tendência excessiva para preocupar-se ou para ter medos não justificados (geralmente manifestados e crianças maiores de seis anos).
Ainda que não se encontrem todos estes sintomas em todas as crianças, os mesmos são frequentemente descritos por pais e professores de sujeitos com Mutismo Selectivo. É por isso bem claro que o mutismo é apenas uma das muitas características que se atribuem às crianças com diagnóstico de Mutismo Seletivo.

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Regresso às aulas…e agora, como será?

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A época de regresso às aulas leva a um misto de sentimentos. Por um lado, a alegria de rever amigos de longa data que não se vêem há imenso tempo, por outro lado são as novas matérias, os novos professores, os novos amigos e as novas batalhas pela frente. Sentimentos controversos que geram ansiedade, nervosismo e felicidade.

 

Dia Mundial da Criança: E se fossem eles a mandar no país?

Têm entre 8 e 9 anos e sabem que o país está em crise. Se mandassem, obrigavam os patrões a pagar mais aos empregados. E, sim, sabem para que servem as eleições, só acham que não valem a pena porque “os que são escolhidos cometem sempre os mesmos erros”

A palavra dinheiro surge várias vezes (demasiadas?) durante a conversa e isso é surpreendente porque ainda mal saíram da fase em que se brinca às princesas e aos piratas. Será porventura porque a crise lhes entrou pela porta de casa adentro, traduzida em coisas como a emigração e o desemprego. Sim, sabem que o país afundou numa crise que deixou muitas pessoas sem poder “por exemplo, alugar uma casa e comprar comida”. Por isso, se fossem primeiro-ministro, obrigavam os patrões a “pagar mais aos empregados” e “o mesmo todos os meses”. Não se imaginam com filhos porque, lá está, “se calhar não vai haver dinheiro para comprar roupas e comida”.

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A pensar no domingo passado  em que se comemorou por todo o lado o Dia Mundial da Criança, o PÚBLICO pediu a cinco alunos do 3.º ano do primeiro ciclo do básico da Escola João de Deus, no Porto, que se sentassem a uma mesa redonda a discutir os problemas do país. Sentados nas cadeiras, chegam bem com os pés ao chão mas apenas porque aquelas são feitas à sua medida. Têm entre oito e nove anos. Francisco, que se destaca do grupo pelos óculos azuis, decidiu que quer ser futebolista quando crescer. Samuel, o mais franzino, também e até já treina no Leixões. Leonor quer ser médica e sabe que a isso a obrigará a “ser sincera e cuidar bem das pessoas”. Beatriz, cabelo preso num rabo-de-cavalo, imagina-se veterinária, por causa da cadela Nina que dorme no seu quarto. João, o mais desenvolvido, casaco de fato-de-treino às riscas pretas e brancas, anuncia que quer ser polícia. “Para prender as pessoas que se portam muito mal”, justifica. “Se calhar vou ter que prender os que estão no Governo também”, acrescenta, dando o mote para a conversa que se prolongou por cerca de uma hora.

João: “Eu gosto de tudo [no país] menos do Governo”

No léxico de todos, substantivos como crise e desemprego tornaram-se familiares. “Crise é estar sem dinheiro. Os nossos pais trabalham e recebem cada vez menos dinheiro todos os anos”, define Beatriz. “A mãe do Francisco está desempregada. E a minha mãe também esteve”, diz Leonor. “A minha mãe já abriu uma espécie de ATL com a minha avó”, corrige Francisco. A minha irmã também está desempregada”, acrescenta João. “Algumas pessoas que ficam sem emprego perdem a casa”, precisa Samuel, ao que Francisco acrescenta: “E têm que pedir dinheiro porque já não podem comprar comida”.

Quanto à emigração, que é “ir para outros países arranjar trabalho”, Samuel e Francisco têm-na como inevitável, mas por razões diferentes das habituais: “Como vamos ser jogadores, se calhar vamos ser contratados por outros países”, explica Samuel. Descontada essa circunstância, todos se mostram pouco confortáveis com a ideia de serem forçados a partir. “Eu não quero, porque gosto muito do meu país. Da paisagem e isso… E deixar cá a família não seria nada bom”, perspectiva Leonor. Ao que João atira: “Eu gosto de tudo [no país] menos do Governo”. Porquê? “Porque é uma coisa má. Só nos deixa obedecer” e temos de estar sempre a pagar!”. Beatriz acrescenta que “o Governo manda pagar menos aos empregados e mais a quem manda nas empresas”. “E obriga-nos a pedir facturas”, soma Francisco. É então que Samuel vaticina, mãos entrecruzadas sobre o tampo da mesa: “Eu, particularmente, acho que todo o país detesta o Governo”.

Samuel: “Se fosse primeiro-ministro inventava uma regra que era os patrões darem mais aos empregados”

Tendo ficado assente neste quinteto que “quem Governa são os maus” – os tais que João admite vir a prender um dia -, a pergunta que se impõe é para que servem, afinal, umas eleições. Diz Beatriz: “Servem para os nossos pais escolherem os nossos governantes. Por exemplo, agora está um, não sei qual é, o PSD ou algum outro, a governar. Mas depois a parte má é que quem é escolhido faz sempre os mesmos erros. E eu não gosto nada disso”. João também não gosta. Francisco idem aspas: “As pessoas escolhem o seu preferido para tornar Portugal melhor, com mais dinheiro, e depois os preferidos acabam por tirar um pouco mais [às pessoas] ”. Depois de Samuel ter opinado que “as eleições são todos os anos” e que coincidem com o dia em que o seu avô faz anos, Beatriz decide precisar o que pensa sobre o assunto. “Com as eleições nós aprendemos quem é que faz mal ao país e quem não faz. É uma lição para votarmos noutros porque já aprendemos que quem lá está não é bom governante”. Logo, “as eleições servem para dizermos que quem lá está não é bom”.

“SINAIS DO TEMPO”

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Dislexicos's Blog

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.

A sociedade está em constante transformação levando consigo alterações que têm que se adaptar ao tempo, ao espaço e cultura, a todo um contexto sociológico. Outrora, a sociedade exigia e permitia determinados padrões de comportamento e regras que se esvaíram no tempo tendo-se transformado, nos dias de hoje, numa nova realidade. Toda esta evolução teve implicações a nível social, familiar e escolar, modificando o conjunto de ideologias vigentes até então.

Segundo Bourdieu, é através da socialização primária ditada pelas relações da classe da família que a criança apreende os princípios organizadores do comportamento. Isto é, a família é o marco mais importante para que a criança se organize a nível de comportamentos e afectos; é através da família que a criança cria as suas bases de formação enquanto indivíduo. A família torna-se o espelho social, em que a criança se reflecte e com o…

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“SINAIS DO TEMPO”

 

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”.

A sociedade está em constante transformação levando consigo alterações que têm que se adaptar ao tempo, ao espaço e cultura, a todo um contexto sociológico. Outrora, a sociedade exigia e permitia determinados padrões de comportamento e regras que se esvaíram no tempo tendo-se transformado, nos dias de hoje, numa nova realidade. Toda esta evolução teve implicações a nível social, familiar e escolar, modificando o conjunto de ideologias vigentes até então.

 

Segundo Bourdieu, é através da socialização primária ditada pelas relações da classe da família que a criança apreende os princípios organizadores do comportamento. Isto é, a família é o marco mais importante para que a criança se organize a nível de comportamentos e afectos; é através da família que a criança cria as suas bases de formação enquanto indivíduo. A família torna-se o espelho social, em que a criança se reflecte e com o qual se identifica, com os seus comportamentos e atitudes, quer tenham carácter mais positivo ou negativo, aos olhos da restante população.

 

Os avanços tecnológicos contribuíram para uma mudança de mentalidades, reflectindo-se nas atitudes e comportamentos das famílias e das crianças, em particular e na sociedade em geral. Se reflectirmos sobre as próprias brincadeiras e interesses, verificamos que, hoje em dia, estas estão cada vez mais centradas nas novas tecnologias (dvd’s, videojogos, computadores….), mais individualistas e mais sedentárias. O espaço físico passou do exterior para espaços fechados, as brincadeiras passaram de colectivas para “solitárias”, contribuindo para modos de vida completamente distintos, quer de adultos, quer de crianças, de há décadas atrás.

 

Estas mudanças tiveram implicações na estrutura familiar, quer a nível sexual, reprodutivo, económico e educativo.

 

No que diz respeito ao nível económico, o conceito de família também sofreu alterações. O casamento deixou de ser visto como um porto seguro em que a mulher necessitava casar para poder, legitimamente, “sair” de casa dos pais e adquirir estabilidade e liberdade financeira. Hoje, a mulher adopta outra postura, mais independente moralmente e financeiramente, mais segura relativamente a questões de sustentabilidade e tomada de decisão tais como a maternidade, o casamento, o divórcio.

 

No que concerne às necessidades sexuais/reprodução, a mulher já não desempenha apenas o papel de reprodutora, programa a gravidez consoante as suas prioridades e objectivos de vida. A própria decisão de ser mãe foi alterada com a legalização do aborto. Os filhos possuem agora uma função discrepante da que tinham anteriormente, deixando de ser unidade de produção para serem uma unidade de consumo. Ao contrário do que acontece no presente, o número elevado de filhos era sinónimo de fonte de rendimentos. Passámos, assim da família alargada para a família nuclear. A vida profissional cada mais activa das famílias não lhes permite ficar com os filhos, acabando estes por ficar entregues a instituições escolares cada vez mais tempo. Os pais acabam por trabalhar mais porque o nível de vida que pretendem alcançar assim o exige, acabando por não passar muito tempo com os filhos e compensando-os a nível material. Deste modo, os filhos tornam-se solitários e individualistas, tendo falta de afecto e convívio, tornando-se todo este sistema numa espécie de bola de neve, num ciclo vicioso, em que umas atitudes, levam a outras.

 

É neste contexto que a escola tem um papel fundamental, pois é lá que as crianças exprimem todas as suas emoções recalcadas e situações traumáticas. A família deixou mais uma vez de desempenhar a função de socialização da criança, cabendo agora este papel à escola.

 

A escola tem vindo igualmente a adaptar-se a todas as transformações vividas pela sociedade, na medida em que deixaram de existir as ditas turmas homogéneas e passaram-se a ter turmas heterogéneas. A figura do professor que outrora era inquestionável passou agora a ser posta em causa. Este passou a ser visto com outros olhos tanto pela família, como pela comunidade educativa em geral. Noutros tempos, a família estava alicerçada ao professor, tendo uma atitude de respeito e consideração pelo seu trabalho, enquanto que, actualmente, o mesmo é desvalorizado e colocado em causa, apesar do trabalho ser cada vez mais complexo, devido à heterogeneidade das turmas.

 

De facto, mudam-se os tempos e daí advém transformações nem sempre positivas, com as quais a escola tem de lidar. As crianças são cada vez mais “depositadas” nas escolas; os pais demitem-se dos seus papéis de educadores, passando a ser a escola a assumi-lo, devido às adversidades e alterações que a sociedade sofreu e que implicam estas atitudes tão diferentes de há umas décadas atrás.

 

Em todo este contexto, surgiu-nos uma questão, no nosso ponto de vista, muito pertinente: Terá a escola a capacidade de dar resposta a toda a esta complexidade de transformações?